Quantas vezes você já disse ou ouviu alguém dizer que “não entende arte”?

Com apenas 77 centímetros de altura e 53 de largura, Lisa Gherardini, mulher de Francisco del Giocondo, mais conhecida como a Mona Lisa, é uma das mais famosas e populares obras de arte da história da humanidade e, possivelmente, a mais estimada em termos de avaliação – já que, fora do mercado, a pintura à óleo sobre madeira de álamo se encontra, desde a Revolução Francesa, no museu do Louvre, em Paris, sendo, neste, a maior atração.

Iniciada nos primeiros anos de séculos XVI e retratando o padrão de beleza feminino da época, o trabalho do renascentista polímata Leonardo Da Vinci é constantemente alvo de cobiça e revolta ao longo dos tempos: registra-se desde ataques realizados por turistas, que atiraram objetos na tela exposta, até o famoso roubo ocorrido há 101 anos, cujo rol de suspeitos figurava o pintor espanhol Pablo Picasso e o poeta vanguardista e crítico de arte francês, Guillaume Apollinaire. A obra reapareceu dois anos mais tarde, nas mãos de Peruggia, italiano patriota que a afanou com o fito de devolve-la ao seu berço natal: a Itália, lugar do qual tinha sido antes tomada por Napoleão Bonaparte.

Gioconda, no entanto, além de representar os mais diversos significados subliminares captados pelos eruditos da arte, desperta algo mais que cobiça e revolta: intimidação. Pergunto: o que faz a Mona Lisa de Leonardo ser “melhor arte” do que os afrescos de um pintor amador capixaba? Afinal, o que define a arte? Isto é, o que é a “boa arte”?

Bom, como dito, muito embora fora do mercado, o quadro renascentista é estimado como, possivelmente, o mais valioso da história da arte. Junto com Mona Lisa, temos outros exemplos de valiosos “intocáveis”: “O Grito”, de um dos precursores do expressionismo alemão, Edvard Munch, cuja uma de suas cinco versões foi vendida em leilão por 120 milhões de dólares em maio deste ano; o cubismo em “Nu, Folhas Verdes e Busto”, de Picasso, arrematada por 106,5 milhões de dólares; e, pra não citar mais, a recordista de venda, “Os Jogadores de Cartas”, do pós-impressionista francês Paul Cézanne, adquirida pela família real do Qatar por 250 milhões de dólares no ano passado. 

Assim, a arte ganhou o mercado, sendo que o valor econômico das peças é altamente influente para o status da mesma no gosto dos apreciadores. Da mesma forma que a “boa moda” é a moda cara, ou seja, que o bem vestido é o que consome as grandes marcas, na arte tal regra da sociedade consumista não é diferente – Picasso e Monet são, assim como Gucci e Armani, grandes marcas, da mesma forma se enquadram neste conceito os já citados Leonardo, Munch e Cézanne. Marginalizado, portanto, é aquele que não consome grandes marcas, ou aprecia bons artistas. Andy Warhol, notório empresário e artista – conhecido pela sua influência no movimento pop-art – já dizia que “fazer dinheiro é arte, e trabalhar é arte, e um bom negócio é a melhor arte”. Tais dizeres claramente mostram a realidade atual do contexto artístico na sociedade, em contradição ao intento e à função que a arte sempre teve: provocar no apreciador um sentimento através de uma sutil e sensível forma de comunicação. A arte, portanto, é subjetiva, o que faz com que nem todos enxerguem algo interessante na nossa Mona Lisa, assim como nem todos devem achar bonito aquele pequeno jacaré estampado na blusa.

De repente, a arte virou um negócio e este aspecto econômico que a envolve cresce de forma inversamente proporcional à inclusão cultural e artística da sociedade. De repente, foram criados pré-requisitos para se olhar para um quadro, como se necessário algum conhecimento intelectual prévio para se gostar ou não de uma imagem. De repente, as pinturas espantaram a própria sociedade que as inspira. De repente, a arte deve ser entendida.

Victor Sartório

Anúncios